Bagunça no ambiente de trabalho afeta a criatividade e pode gerar atritos

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Businessman sinking in heap of documentsPara a tristeza dos bagunceiros, desordem e criatividade não andam juntas como mostram alguns estudos científicos.

A organização no ambiente de trabalho permite que tarefas sejam realizadas de forma mais rápida, evita estresse e até estimula a imaginação.

“Essa relação aparece em algumas pesquisas porque os dois processos são espontâneos, mas não é algo que se comprove na prática. A desorganização mental atrapalha o processo analítico, componente importante para a resolução de problemas”, diz Álvaro Dias, neurocientista e pesquisador da Unifesp.

Benito Damasceno, neurologista da Unicamp, concorda: “É preciso ter disciplina em qualquer tipo de trabalho para que as funções sejam executadas de forma ágil e correta. Com a bagunça, a atenção fica dividida entre duas ou mais coisas”.

Ele explica que, para que haja criatividade no processo de trabalho, uma parte da mente deve estar livre de obrigações materiais, como a necessidade de arrumar a mesa, por exemplo. “Dessa forma, há uma economia de energia mental e a pessoa pode focar em coisas mais interessantes”, explica.

A chance de o funcionário perder o foco no meio de pilhas de papel, garrafas de água vazias e dezenas de canetas também é grande, afirma Dias. Além disso, a desordem pode afetar os colegas e até criar atritos.

 

DIFERENÇAS

A DJ Mary Olivetti, 33, e a publicitária Vivian Câmara, 27, vivem isso na pele. As duas trabalham juntas há quatro anos em uma empresa que produz trilhas sonoras em São Paulo e já entraram em conflito por causa de hábitos de arrumação diferentes.

“A Vivian é meu braço esquerdo e direito, mas me deixa louca por causa da quantidade de papel que tem em cima da sua mesa. Quando eles invadem a minha área, eu empurro”, conta Olivetti.

A publicitária, por sua vez, tem outra visão sobre a desordem. “Tem bastante coisa na minha mesa, mas gosto do jeito que organizo as coisas, me sinto bem”, afirma.

Revistas de moda, canetas e papéis de anotação estão entre os itens que compõem seu espaço de trabalho.

Nos momentos de discórdia, a tolerância é fundamental, destaca o psicólogo Aurélio Melo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A pessoa deve perceber se a diferença a atinge na prática ou se é apenas um incômodo visual e mental.”

O designer Robson Santos, 44, e a publicitária Ana Vailati, 39, que trabalham em uma start-up que desenvolve projetos de produtos digitais, também já tiveram atritos por causa de hábitos de organização opostos.

“Sou extremamente organizada, costumo chegar uma hora antes no trabalho para planejar meu dia. Já o Robson é um cara de criação, tem muitos livros na mesa. Até arrumo a mesa dele de vez em quando”, conta Vailati.

Ela garante, contudo, que não se irrita com o comportamento do colega: “Ele que fica irritado comigo.”

O designer se defende: “Eu não gosto das coisas escondidas, quero que tudo esteja ao alcance da minha visão. Isso acaba gerando bagunça, mas faz parte do meu processo de trabalho”, afirma.

A organizadora pessoal Juliana Faria diz que o maior erro no trabalho é querer organizar a mesa do colega sem permissão: “Não podemos invadir o espaço de ninguém, só se o outro concordar.”

 

ORDEM, MAS NEM TANTO

Além da bagunça, a organização em excesso também pode limitar a criatividade, de acordo com Melo.

“A pessoa com mania de perfeição, extremamente metódica, pode ficar com o pensamento enrijecido”, diz.

A obsessão também pode atrapalhar o rendimento no trabalho, acrescenta o psicólogo. “Gastar muito tempo com a arrumação, em detrimento de outras coisas, é ruim. Afinal, o chefe não quer saber se a mesa está arrumada, mas se a tarefa foi entregue”, afirma Melo.

Para que o indivíduo aproveite ao máximo seu potencial no trabalho, o importante é perceber qual tipo de ambiente o deixa mais confortável, recomenda a neurocientista Silvana Chiavegatto, pesquisadora da USP.

“O desconforto atrapalha a criatividade. Um ambiente com menos estresse e pressão é mais propício para o desenvolvimento do indivíduo”, diz.

 

CADA PAPEL NO SEU LUGAR

Empilhar papéis e não categorizar documentos são os maiores responsáveis pela bagunça na mesa de trabalho, de acordo com a organizadora pessoal Juliana Faria, da Yru Organizer.

Para botar ordem no lugar, ela recomenda que sejam usados separadores de revista de acrílico que dividem a papelada em grupos de acordo com o assunto.

A publicitária Ana Vailati, 39, é adepta da tática de categorização, inclusive para arquivos digitais.

“Tenho pasta para tudo no computador, além de três HDs de memória”, conta. “Já cheguei a imprimir e-mails para arquivar em pastas.”

Faria afirma que a organização é um processo e que ninguém vai conseguir mudar do dia para a noite. “Um dia, a pessoa arruma a gaveta. No outro, separa as coisas em categorias. Tem que ser aos poucos”, afirma.

Além da mesa de trabalho, a bagunça pode chegar a outras áreas comuns da empresa, como a copa ou a cozinha, destaca a organizadora pessoal Ana Paula Vanzan, da Espaço Ordenado.

“É um lugar que gera muito estresse. A falta de organização pode fazer alguém comer o lanche dos colegas sem querer. Também causa problemas de higiene, devido ao acúmulo de louça suja na pia e de comida estragada na geladeira”, afirma.

A solução para a questão é fácil, mas não custa repetir: “Pegou, guardou. Abriu, fechou. Sujou, limpou”, diz.

Quando não tem jeito, a tarefa acaba sobrando para o mais organizado. “Guardo as louças, arrumo o armário, jogo os potinhos sem dono fora e os saquinhos de mercado que ficam jogados”, garante a DJ Mary Olivetti, 33. “Meus colegas ficam loucos.”

Já para quem deseja se livrar das amarras da organização excessiva, a dica é relaxar. “Não é saudável se tornar uma pessoa neurótica por arrumação. Senão, isso se torna mais importante que o trabalho”, diz Vanzan.

Fazer um esforço para aceitar que um pouco de desordem é inevitável também é crucial, afirma Aurélio Melo, psicólogo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Acontece de forma natural, é preciso saber conviver.”

Uma outra forma de amenizar o comportamento rígido e engessado no trabalho é se dedicar a atividades artísticas no tempo livre, defende Benito Damasceno, neurologista da Unicamp.

“Uma mente muito automatizada prejudica a inteligência e a criatividade. É importante praticar atividades esportivas ou artísticas para compensar”, explica.

 

Autor: Júlia Zaremba

Fonte: Folha de S. Paulo

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